sexta-feira, 16 de outubro de 2009

RESENHA "ORAÇÃO DOS DESESPERADOS" DE SÉRGIO VAZ


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MANO BROWN NA COOPERIFA

Quando li o texto que ora me promonho a analisar, senti um comoção profunda! Felizmente existem pessoas como o paulista Sérgio Vaz, que se preocupam com o bem-comum. O mais interessante foi notar que esse "pensar coletivo" ultrapassa a fome do estômago, alcança a fome do espírito, afinal " a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". Não acreditei quando li na Revista Época de março desse ano que uma senhora de 42 anos, moradora de Taboão da Serra em São Paulo, onde Vaz criou a Cooperifa, nunca havia ido ao cinema até a estreia do "Cinema na Laje" no mês da citada edição de Época. A tal Cooperifa parece-me uma Associação de Moradores de uma periferia, basta observar a composição da palavra que sugere Cooperativa da Periferia. Essa organização não-governamental gerenciada por Vaz tem, presumo, finalidade econômica e cultural. Ele é radical: "se os 'deuses de gravata' evocados na oração querem nos violentar, violentemo-lhes antes; em vez de comprarmos seus produtos, produzamos os nossos!" Além do "Cinema na Laje", que ocorre duas vezes por mês, o "Colecionador de Pedras" como se intitula em seu blog, promove o Sarau de Poesia, uma vez por semana,PASMEM, no Boteco do Zé Batidão porque "periferia não tem museu nem teatro, mas tem boteco". Lá ele instalou uma biblioteca. Essas "pedras", segundo Vaz, "não falam, mas quebram vidraças". Percebo a intenção desse artista em popularizar a arte e, por extensão, coibir a violência e a alienação social: "perco poetas para a faculdade, mas não para a novela." O povo simples pega o microfone e declama sobre si: violência, prostituição, desemprego; também versam sobre amor e sonhos... O Sarau do Zé Batidão acontece ao mesmo tempo que o Sarau do Bezerra em Porto Alegre, e o Coletivoz em Belo Horizonte, eventos de inspiração paulista. Reconhecimento seja feito ao pai do "vira-lata", outra perífrase do sujeito, que ofereceu livros a ele estimulando todas essas elucubrações, que se tornaram, em tese, uma das razões de viver desse brasileiro que tomou posse à força de sua cidadania! Certamente, ele se interessou por Victor Hugo, Oswald de Andrade, Ferreira Goullar, Mário Quintana, João Cabral de Melo Neto, Ivan Junqueira, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira dentre outros a quem ele faz referências, a partir das leituras de seu pai... VIVAM OS PAIS LEITORES.... Outra empreitada de Vaz foi a "Semana de Arte Moderna da Periferia", "contra os vampiros das verbas públicas e arte privada", ocorrida em 2007 nos moldes antropofágicos oswaldianos: vamos comer os "engravatados" e metabolizar, metamorfozear a arte dos "periféricos" com muito orgulho! Outro evento idealizado por Vaz, que eu achei o "must" foi o "Ajoelhaço"... Ele coloca, alguém me corrija se eu estiver enganada, uns marmanjões covardes que agridem suas mulheres verbal e/ou fisicamente para ajoelhar no Dia da Mulhe, 08 de março, para pedir perdão diante delas... Eu queria muito ver isso! Filma aí, Vaz, pra gente acreditar que isso acontece mesmo! heheheheh... Digressão encerrada. Vamos orar!!! Em desespero, porque o "Deus de Gravata" não parece um deus clemente, tal qual Cronos, que devorava seus filhos ou Zeus que tentou exterminar a humanidade! O termo "senhores" no poema pode ser lido de maneira polissêmica: Senhor, em caráter metafísico, sobrenatural, acima dos homens; Senhor, quase doutor, em caráter hierárquico social, acima dos "homens comuns", mortais desescolarizados, encolerizados, mas não coleirizados... O trecho "Escuta este canto/que lindo este povo! /quilombo este povo! que vem a galope com voz de trovão." me lembrou Bandeira: "Café com pão, café com pão, café com pão(...)" Imaginei um "beat box", como dizem os meus alunos. O final da oração é show: parafraseando, "atende essa oração que clama por justiça, senão esse que ora vos ora se arma quase num intento camicase urbano do tipo 'eu vou, mas levo deus comigo'. Perceba-se que o verbo "levar", nessa circurstância tem um sentido de morte a esse deus injusto e a seus iguais, nada mais justo. Considerem-se os intergêneros textuais e discursivos: poema-prece ou prece-lírica, sem falar no tom ensaístico, argumentativo que percorre todo a tessitura do poema por meio da polifonia dialética instaurada: desesperados em diálogo com desesperantes, que correm o risco de se verem destronados em razão de sua indiferença ante o desespero dos menos "engravatados".

Um comentário:

  1. Está aí, o ajoelhaço da Cooperifa.
    Beijos.

    sergio vaz

    http://www.youtube.com/watch?v=a9mP-6aSFO0

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